Fragmentos

Cirne Lima, in memoriam

Recordo-me como se fosse ontem ter ficado intrigado com questões postas por um ouvinte durante evento, creio sobre Hegel, muitos anos atrás.

Naquela época havia me aproximado da literatura marxista, tendo logo percebido, de modo correto, por sinal, que pouco compreenderia de Marx sem a imersão prévia na filosofia de Hegel.

Não me via ali, portanto, por acaso, e logo pedi, a quem fazia perguntas tão interessantes, por sugestões de leitura, sem ter a menor ideia do papel central que Cirne Lima, para mim até então um desconhecido, teria não apenas em minha formação, mas em minha vida. 

Era um momento de mudança pessoal. Havia me formado e atuava como jornalista, mas me desagradava o foco no instante, no furor da notícia e sentia falta do olhar mais distanciado, da escrita de textos mais elaborados e meditados. Sociologia? História? Filosofia? Que sabia eu, nesta fase de ainda puro porvir? 

Ao entrar no Mestrado de Filosofia da PUCRS, para minha surpresa, deparei com Cirne Lima, que havia recém se aposentado na UFRGS e iniciava uma nova fase de sua carreira, em pleno vigor, na tarefa de elaboração de um novo projeto de sistema, que distribuía entre nós alunos, para longas discussões em aula. A ideia era, via a crítica minuciosa a Hegel, reatualizar o projeto de sistema neoplatônico. 

Cirne Lima tinha um estilo próprio de aula: não se debruçava em análises tediosas dos textos dos filósofos, em repetições ruminativas, embora às vezes necessárias, do sabido. Preferia atacar o assunto de frente, expor à crítica suas ideias, construí-las diante de nós, esperando o diálogo franco e direto. Uma primeira parte da aula de exposição, uma segunda parte mais dedicada à troca de ideias. 

Tratava com profundidade, por exemplo, o texto hegeliano, quando o momento pedia, mas nunca se prendia ao hegelianês. Sempre distanciava-se e questionava o texto, livros dos críticos clássicos da dialética ao lado, o Schelling tardio por exemplo, e a tarefa muito explícita: trazer o texto de novo à fala, esclarecê-lo e apresentar as ideias de Hegel em linguagem quase cartesiana, clara e distinta, mas, sobretudo, problematizá-las, testar sua validade aqui e hoje. 

Tornar vivo o que parecia distante e abstrato, atualizar o discurso dos clássicos para que a verdade pudesse tornar-se de novo presente em cada um de nós. E ousar, propor novas ideias quando as antigas não nos satisfaziam mais. Rever conceitos, reexaminar argumentos, assombrar-se com a filosofia e reinaugurá-la. 

A verdade reencontrada era a Ideia. O cerne da Ideia eram os seus traços constitutivos: vida, dinamismo, circularidade, relacionalidade, totalidade. Sumarizados belamente na imagem a que retornava em todas as aulas, o quebra-cabeça dinâmico da Dialética, em oposição ao prédio estático da Analítica.    

Eu, por meu turno, havia encontrado um sentido inteiramente novo em algo que nunca me agradara muito: a sala de aula. Aprendia muito, mergulhava nos textos obscuros de Hegel, sabendo que podiam ser esclarecidos, porque apareciam revigorados e cristalinos na fala do Cirne. Sentia-me avançando, adentrando em uma via que julgava tão minha, tão próxima e promissora, que parecia um reencontro, não um caminho inteiramente novo. 

Agora, muito anos depois daquele primeiro encontro, vou constatando aos poucos, não sem surpresa e certa resistência interna, que a filosofia pouco tem a ver com a troca acalorada de ideias entre contendores que não se conhecem, o confronto pelo confronto a que chamamos debate. Ainda menos a conversação, o “jogar conversa fora” que é a marca do nosso tempo. Nada contra a conversação no momento certo.

Tem seu ponto de partida no diálogo, se o compreendemos como a condução metódica de certo contexto de problematização por parceiros que se conhecem há muito tempo, ou ao menos como a abertura sincera ao pensamento de outrem, quando lemos ou conhecemos as suas ideias, mesmo sem a sua presença física. 

Aprofunda-se em uma busca interior, única e intransferível. Uma procura interna que é rica e valiosa justamente por se dar nesse ambiente de recolhimento. 

Aqueles a que chamamos filósofos são menos “professores”, repassadores de conhecimento, do que exemplos emblemáticos de um modo de vida. 

São aqueles que indicam e reinauguram a segunda navegação socrática, o caminho para dentro. Só recolhendo-se, abismando-se em si mesma, pode a filosofia reencontrar, sempre de novo, a via do pensamento.

A interioridade é a pátria da filosofia, mas ela não seria nada sem o seu destino. A todo processo de reinteriorização corresponde uma nova ida para fora, um retorno ao solo fértil do diálogo.

Que a filosofia se faça sempre de novo presente.

Obrigado, Cirne Lima.    

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Confinamento ou abertura?

E aí, manter o confinamento ou abrir de vez?

Algumas ponderações.


1. Nossa decisão pelo confinamento não foi ponderada, baseada no recurso a modelos matemáticos, mas resultou do pânico (não irracional, de todo modo, como se vê em 3) e mostrou-se imitação precária (no ocidente) do que se fez na origem do problema (na China).


2. Recurso a modelos matemáticos a fim de “ponderar” a decisão tem sido racionalização pós-fato: vem da tranquilidade de seguir “cientistas”, como há pouco seguíamos os xamãs e outros do tipo. “Previsão” de comportamento futuro de eventos complexos é chute.


3. Nossa permanência em confinamento pode ser justificada, de novo, não com apelo a modelos matemáticos, já que o comportamento futuro do vírus é incerto. Ela pode ser justificada justamente porque desconhecemos o comportamento futuro do vírus e porque há ocorrências históricas de epidemias catastróficas (se ocorreram, são possíveis). Daí o apelo ao princípio de precaução.


4. Agora o ponto crucial: não estamos vivenciando apenas um enorme desafio de saúde pública, mas o colapso de enormes bolhas financeiras internacionais, em grande medida decorrente da fragilidade do sistema, por sua vez ao menos parcialmente causada pela arrogância epistêmica dos “cientistas econômicos” que infuenciam os governos e/ou comandam os bancos centrais.


5. E o que fazer agora: manter o confinamento ou abrir as portas ou algo entre? Aqui o impasse: não estamos diante apenas da incerteza decorrente do colapso na saúde pública (sem confinamento), mas por igual daquela resultante de possível e iminente caos econômico e social (com confinamento indefinido), sobretudo nos ditos países de terceiro mundo pra baixo. Como sair do impasse?


6. A própria indecisão crônica de nossos governos, carentes como são do grau mínimo de ética política, sugere que a resposta virá de novo do pânico.

Atacama

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Jejum natural

Mark Baker, o @GuruAnaerobic, teve uma intuição interessante: nossa quarentena é uma espécie de jejum natural de longa escala, ou melhor, um Jejum da Natureza, um tempo para se recuperar da fúria invasiva da ação humana.

Se o jejum intermitente é bom para nossos corpos, quem sabe também o seria para os  ecossistemas que os sustentam ou suportam?

Observando o movimento dos carros retomar forte hoje em Porto Alegre, contra as últimas normas do governo por sinal, pergunto se não deveríamos levar nosso aprendizado da quarentena adiante.

Ficaria assim, de agora em diante:

1. Miniquarentenas: 1 ou 2 dias por semana para todos, sem distinção.

2.  Quarentena literal: 1 x por ano para todos, sem distinção.

A natureza agradece e todos nós também, à espera da próxima pandemia.

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O vírus e a bolha

Nenhum sinal de que o banco central americano vá recuar de seu keynesianismo delirante, sua maquininha produtora de bolhas.

Pelo contrário, tudo indica que o colapso recente do petróleo vai levar esta insanidade a novos patamares.

Não há melhor momento para testemunhar a verdade crucial de nosso tempos:

não conhecemos e não controlamos sistemas complexos: nossos corpos, nossas almas enredadas, os sistemas sociais, os sistemas econômicos e os ecossistemas mais amplos que possibilitam tudo isto,

mas fingimos o reverso. O preço vai ser enorme.

O vírus estourou a bolha.

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Fragmentos

Somos todos virologistas

  1. O vírus nos apequenou.
  2. Em pânico, corremos para os virologistas. Todos viramos virologistas, o olhar focado no vírus.
  3. A verdade não é mais o todo, a verdade é o vírus.
  4. Ou melhor,  nós somos a verdade para o vírus. O objeto tornou-se sujeito. Nós somos o alvo da sujeição.
  5. Nada de sociologia, de psicologia, nem de política; da filosofia, então, deus nos guarde.
  6. Somos todos virologistas.
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Enlaçamentos (2017), Fragmentos

Ao intervencionista que mora em cada um de nós

1. Você sabe de fato o que é o bem?

2. Você sabe que sabe o que é o bem?

3. Você sabe como fazer o bem?

4. Você sabe que sabe como fazer o bem?

5. Você sabe se as consequências de sua ação serão de fato boas?

Atacama

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A Contemplação do Mundo (2018), Fragmentos

1. Em democracia derrubamos ideias, não pessoas (= não-violência).

2. Em democracia derrubamos as piores ideias, sem a pretensão de encontrar a melhor ideia (não-otimização).

3. Em democracia não visamos o consenso*, mas a institucionalização da possibilidade de dissenso.

*A ilusão habermasiana.

El Calafate

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A Contemplação do Mundo (2018), Fragmentos

Democracia pode significar o poder do povo ou o poder das pessoas. Um sentido é o reverso do outro.

 

É a diferença entre uma visão holista e outra estritamente relacional ou dialética em ontologia social. A primeira versão é compatível com uma visão liberticida, a segunda não.

El Calafate

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