Notas de Aula

A verdade e sua garantia

Buscando uma resposta a uma interessante indagação de um aluno:

“O que garante a existência da verdade?”

A dialética implica, nos seus traços mais próprios,  uma teoria coerentista da verdade e assume um pressuposto central do idealismo objetivo, a identidade estrutural entre ser e pensamento.

Neste contexto, a verdade aparece com uma dimensão epistêmica (aqui a dialética dialoga sem problema com uma teoria da verdade como “correspondência” ou “apresentação” dos fatos ou eventos) e uma dimensão ontológica (conformidade de um evento com o Conceito (Hegel) ou com a Ideia da Coerência).

Do ponto de vista epistêmico, a garantia é falível e negativa: pagamos o preço por supor verdadeiro o que não é verdadeiro (note que “pagar o preço” implica uma ontologia: não há epistemologia sem pressupostos ontológicos); mas há uma assimetria radical aqui: não “pagar o preço” de supor verdadeiro o que não é verdadeiro não significa ser verdadeiro o que se supõe verdadeiro.

Do ponto de vista ontológico, a “garantia”, por igual precária, é a suposta (olha o reverso agora, a dimensão epistêmica pressuposta pela ontologia: não há teoria do ser sem epistemologia) verdade da afirmação de que “toda perda de determinação da parte envolve transformação de determinação em um todo mais abrangente”, ou seja, supõe a eternidade do universo e a verdade da afirmação ex nihilo nihil fit.

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Fragmentos

Confinamento ou abertura?

E aí, manter o confinamento ou abrir de vez?

Algumas ponderações.


1. Nossa decisão pelo confinamento não foi ponderada, baseada no recurso a modelos matemáticos, mas resultou do pânico (não irracional, de todo modo, como se vê em 3) e mostrou-se imitação precária (no ocidente) do que se fez na origem do problema (na China).


2. Recurso a modelos matemáticos a fim de “ponderar” a decisão tem sido racionalização pós-fato: vem da tranquilidade de seguir “cientistas”, como há pouco seguíamos os xamãs e outros do tipo. “Previsão” de comportamento futuro de eventos complexos é chute.


3. Nossa permanência em confinamento pode ser justificada, de novo, não com apelo a modelos matemáticos, já que o comportamento futuro do vírus é incerto. Ela pode ser justificada justamente porque desconhecemos o comportamento futuro do vírus e porque há ocorrências históricas de epidemias catastróficas (se ocorreram, são possíveis). Daí o apelo ao princípio de precaução.


4. Agora o ponto crucial: não estamos vivenciando apenas um enorme desafio de saúde pública, mas o colapso de enormes bolhas financeiras internacionais, em grande medida decorrente da fragilidade do sistema, por sua vez ao menos parcialmente causada pela arrogância epistêmica dos “cientistas econômicos” que infuenciam os governos e/ou comandam os bancos centrais.


5. E o que fazer agora: manter o confinamento ou abrir as portas ou algo entre? Aqui o impasse: não estamos diante apenas da incerteza decorrente do colapso na saúde pública (sem confinamento), mas por igual daquela resultante de possível e iminente caos econômico e social (com confinamento indefinido), sobretudo nos ditos países de terceiro mundo pra baixo. Como sair do impasse?


6. A própria indecisão crônica de nossos governos, carentes como são do grau mínimo de ética política, sugere que a resposta virá de novo do pânico.

Atacama

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Fragmentos

Jejum natural

Mark Baker, o @GuruAnaerobic, teve uma intuição interessante: nossa quarentena é uma espécie de jejum natural de longa escala, ou melhor, um Jejum da Natureza, um tempo para se recuperar da fúria invasiva da ação humana.

Se o jejum intermitente é bom para nossos corpos, quem sabe também o seria para os  ecossistemas que os sustentam ou suportam?

Observando o movimento dos carros retomar forte hoje em Porto Alegre, contra as últimas normas do governo por sinal, pergunto se não deveríamos levar nosso aprendizado da quarentena adiante.

Ficaria assim, de agora em diante:

1. Miniquarentenas: 1 ou 2 dias por semana para todos, sem distinção.

2.  Quarentena literal: 1 x por ano para todos, sem distinção.

A natureza agradece e todos nós também, à espera da próxima pandemia.

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Fragmentos

O vírus e a bolha

Nenhum sinal de que o banco central americano vá recuar de seu keynesianismo delirante, sua maquininha produtora de bolhas.

Pelo contrário, tudo indica que o colapso recente do petróleo vai levar esta insanidade a novos patamares.

Não há melhor momento para testemunhar a verdade crucial de nosso tempos:

não conhecemos e não controlamos sistemas complexos: nossos corpos, nossas almas enredadas, os sistemas sociais, os sistemas econômicos e os ecossistemas mais amplos que possibilitam tudo isto,

mas fingimos o reverso. O preço vai ser enorme.

O vírus estourou a bolha.

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Fragmentos

Somos todos virologistas

  1. O vírus nos apequenou.
  2. Em pânico, corremos para os virologistas. Todos viramos virologistas, o olhar focado no vírus.
  3. A verdade não é mais o todo, a verdade é o vírus.
  4. Ou melhor,  nós somos a verdade para o vírus. O objeto tornou-se sujeito. Nós somos o alvo da sujeição.
  5. Nada de sociologia, de psicologia, nem de política; da filosofia, então, deus nos guarde.
  6. Somos todos virologistas.
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